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Olá pessoal inscrito no Curso de Extensão Poesiando,
Belê?
Então, resolvi postar aqui no blog 77 poetas que
curto. Eu tenho um lance com o número sete. Kkk. São escolhas minhas,
portanto, se você não encontrar o Homero, o Virgílio, o Camões, o Shakespeare,
o Borges, o Raul Bopp, o Oswald de Andrade, o Ezra Pound, a Sylvia Plath, a Florbela Espanca, a
Cora Coralina ou a Marly de Oliveira, não se assuste, é que não dava pra
colocar todo mundo. Essas são escolhas pessoais. Só gostaria mesmo de
compartilhar alguns livros que fazem parte da minha existência. Possuo vários
dos livros citados; outros, li-os em minhas eternas idas às bibliotecas.
Biblioteca é a coisa mais linda desse mundo!!!!
Ao longo do curso um dos objetivos é criarmos um
banco de dados com leituras, textos, vídeos, etc. Será incrível se todos
colaborarem e enviarem links, docs e vídeos ao meu mail (maraires2@gmail.com),
assim vou repostando os materiais enviados. Amanhã, quinta, dia 4 de junho,
postarei no blog o programa de atividades do curso, os horários, as temáticas,
etc. Enfim, repassarei as coordenadas gerais.
Boa leitura!
Profa. Dra. Marcele Aires Franceschini
(Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias e Programa de Pós-Graduação
em Letras) da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Coordenadora do Poesiando
AUTORES (em ordem alfabética)
1)ABDIAS DO NASCIMENTO (1914-2011). Grande poeta, dramaturgo, um dos maiores artistas plásticos
brazucas. Suas pinturas de orixás são sensacionais, reconhecidas
internacionalmente. Sou fãzaça! (Pra conhecer algumas pinturas dele, acesse: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa359885/abdias-nascimento). Criador do Teatro Experimental do Negro (1944), hoje
o intelectual deixa uma rica herança aos jovens atores negros do país. Durante
o exílio no período militar (1968-1981), foi muito ativo na divulgação do
Pan-Africanismo, realizou inúmeras conferências e foi professor de distintas
universidades norte-americanas (Yale, State University of NY, etc.). Dele, vale
a pena ler muita coisa: O genocídio do negro brasileiro [1978], O
Quilombismo [1980], Orixás: os deuses vivos da África [1995], Africans
in Brazil: a Pan-African perspective [1997], O Griot e as muralhas
[2006]. Abdias é, certamente, um dos maiores ativistas da
cultura negra no Brasil. Atuou também na política brasileira. Foi ele quem
instituiu o Dia da Consciência Negra no país. Não por acaso tenha sido
nominado, em 2004, ao Nobel da Paz. Ler Abdias é ler a luta viva do povo negro.
Seu livro poético, Axés do sangue e da esperança: Orikis [1986],
certamente traz esse sentido: Lutar é crescer no além e no aquém...
2) ADALGISA NERY (1905 -1980). Sim, foi casada com o grande pintor Ismael Nery, quem a
colocou no círculo dos modernistas. Momento Contigo: quando a bela
ficou viúva, Murilo Mendes a pediu em casamento, porém ela escolheu outro,
Lourival Fortes, chefe do DIP, ministério da censura de Getúlio. De qualquer
forma, ao se separar do bofe, Adalgisa se redimiu, casando-se finalmente com o
amor de sua vida: o socialismo. Atuou na política como deputada do antigo
Estado da Guanabara e lutou contra a ditadura militar. Fortes emoções. É autora
entre outras obras poéticas, de A mulher ausente [1940], Ar do
deserto [1943], As fronteiras da quarta dimensão [1952]. Erosão,
seu último livro [1973], como informa o próprio título, é bem profundo,
demonstrando o estado de reflexão da autora, que acabou morrendo só, num
asilo. É daqueles livros que a gente lê com taça de vinho na mão: Pulveriza
o meu espírito / A solidão do suicida ignorado / E cresce assustadoramente
dentro de mim / A calmaria que precede o fim.
3) ADÉLIA PRADO (1935). Professora, escritora, filósofa. Quando seus originais chegaram
às mãos de Drummond, foi incentivada pelo poeta conterrâneo a publicar seu
primeiro livro poético: Bagagem [1975]. Em 1978 foi a vez de O
coração disparado, seguido do Terra de Santa Cruz [1981], O
pelicano [1987], A duração do dia [2010], entre outros. É uma das
autoras mais estudadas no Brasil, além de suas obras terem sido traduzidas a
diversos idiomas. Titia mineirinha que adora cozinhar aos amigos, agradar aos
netos e dispensa apresentações. “Ex-voto”, um de seus poemas mais bonitos, é
recitado no link a seguir pela maravilhosa Elisa Lucinda. Vale a pena
conferir: https://www.youtube.com/watch?v=Z_1v7SE5-AY.
4) ALICE RUIZ (1946). A lady dos haicais no Brasil. Tem 21 livros publicados e
traduções importantes como Dez Haiku [1981], Céu de outro lugar
[1985], Sendas da sedução [1987] e Issa [1988]. Já ganhou Jabuti [2009]
e é paranaense. Não vou falar que era mulher do Leminski porque odeio quando a
reduzem a essa condição. Sempre leio Jardim de Haijins pra
minha filha, Iaiá, desde que ela era bebê. Livro sensível, com belas
ilustrações, pra ser lido pra criança ou avó velhinha: ipê amarelo / no
galho mais alto / a primeira flor. Eu o tenho antes mesmo de a Iaiá nascer,
com uma dedicatória toda fofinha da autora: “Beijos floridos e poéticos”. Alice
é também uma letrista muito f***, compondo desde jovem. Em 2005, lançou sem
primeiro CD, o Paralelas, com participação de Alzira Espíndola, Zélia
Duncan e Arnaldo Antunes. Aqui, o álbum na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=jHOi2GHqRdU. Mas pra que a gente acorde é fundamental sonhar...
5) ÁLVARES DE AZEVEDO (1831-1852). Gênio precoce, morreu cedo o coitadinho, aos 21. Morreu
porque, tuberculoso, literalmente caiu do cavalo. Quem olha a foto do pobre
menino de gravatinha borboleta jamais imaginaria quão punk são seus versos,
ultrabyronianos, death, baby!, nitroglicerina pura! Pra mim, o
maior poeta romântico em língua portuguesa, maior que o Garrett. Chupa,
Portugal! Kkk. A lira dos vinte anos é sua grande obra, publicada
postumamente, em 1853. Sua grande musa é a morte (queriam quem como musa de um
poeta romântico? A Carla Perez?): Acorda-te, mortal! é no sepulcro / Que a larva humana
se desperta à vida! / Quando as harpas do peito a morte estala, / Um treno de
pavor soluça e voa... / E a nota divinal que rompe as fibras / Nas dulias
angélicas ecoa!. Pra quem quiser o livro, na íntegra: http://redememoria.bn.br/wp-content/uploads/2011/12/lira-dos-vinte-anos.pdf).
6) ÁLVARO DE CAMPOS (1890-1935). O mais popular dos heterônimos do doido, do doido que
amamos, Fernando Pessoa. E pra você que acha que tô viajando, sim, os
heterônimos também tinham data de nascimento/morte e até mapa astral feito pelo
bruxo. Pra mim, “Tabacaria” é um dos maiores poemas já escritos!!! Sempre
trabalho com meus alunos da graduação. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa
como gente / Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de
coisas como tabuletas, / Sempre uma coisa defronte da outra, / Sempre uma coisa
tão inútil como a outra, / Sempre o impossível tão estúpido como o real, / Sempre
o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, / Sempre
isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. Aqui, o monstro Abujamra recitando-o no “Provocações”: https://www.youtube.com/watch?v=O79ISI8A5gY.
7) ANA CRISTINA CÉSAR (1952-1983). Linda, musa, que a gente ama. Poeta prodígio, aos 19
aninhos, após intercâmbio na Inglaterra, traduziu nomes ‘fraquinhos’ como Emily
Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield. Tem textos em prosa e críticas
literárias, mas a gente ama mesmo a sua poesia: Cenas de abril [1979], Correspondência
completa [1979], Luvas de pelica [1980], Inéditos e dispersos [1985],
além de obras póstumas. Uma pena ter se suicidado tão jovem. Pulou do prédio,
mas nos deixou belezas, como A teus pés [1982]: Eu queria / apanhar uma braçada / do infinito
em luz que a mim se misturava. Aqui, ela recitando
“Samba-Canção”:
https://www.youtube.com/watch?v=Qqa7_7_wDe8. Pra quem quiser, a Bianca Comparato recita-o na
íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=rnzn0mP9fIs
8) AUGUSTO DOS ANJOS (1884-1924). Poeta paraíba, meu conterrâneo, de Sapé. Publicou apenas um
livro de poemas na vida, Eu e outras poesias, pois morreu cedo, como os
seus contemporâneos, de tuberculose. Mas fio, não precisava outro não... Esse
aí já arrebenta. “Poema negro” é do c***: Pois bem! Chegou minha hora de
vingança. / Tu mataste o meu tempo de criança / E de segunda-feira até domingo,
/ Amarrado no horror de tua rede, / Deste-me fogo quando eu tinha sede… / Deixa-te
estar, canalha, que eu me vingo! Aqui, o livro na íntegra: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv.00054a.pdf
9) ASCENSO FERREIRA (1895-1965). Poeta introdutor do Modernismo no Nordeste, com o
livro Catimbó [1927], antes de Essa Nega Fulô, de Jorge de
Lima [1928]. Ajudou o Mário de Andrade a compor Macunaíma – inclusive aparece
no final do capítulo “Macumba”. Ascenso é um poeta que merece ser reconhecido.
Foi meu tema de pesquisa no Mestrado, em 2003. Certamente, o Modernismo no
Nordeste não seria o mesmo sem o autor de poemas que versam sobre folguedos,
cantigas e tradições culturais nordestinas. É também autor de Cana-Caiana
[1939] e Xenhenhém [1951]. Foi um dos primeiros autores brasileiros a
gravar seus poemas. Aqui, o CD com os poemas de Catimbó:
https://www.youtube.com/watch?v=61WNWG4Vco4. E aos mais ousados, a versão do poema “Catimbó” (que dá nome ao livro)
na musicalidade de DJ Dolores e Santa Massa:
https://www.youtube.com/watch?v=Z7xTvf0Nvpk
10) BAUDELAIRE (1821-1867). Autor do clássico Les Fleurs du
Mal [1857]. No mesmo ano de lançamento foi acusado de ultrajar a moral e os
bons costumes. Seus exemplares foram
apreendidos. Taí o valor do poeta. Quebrando regras... O grande flâneur,
poeta errante, observador, o explorador urbano. Pra ser mais rock n’ roll
ainda, morreu de sífilis, antes de conseguir realizar a edição final de seu
grande livro. Sem titio Baudelaire, a poesia moderna não seria a mesma. Pra
mim, ninguém ganha na competição “cara de louco”. É só pesquisar as fotos dele.
O dândi, o louco, o poeta genial. Ler Baudelaire é entender como o mundo
aprendeu a ser moderno, como no genial “Embriaguem-se”, contido no Spleen de
Paris: É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única
questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a
terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com
quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. Aqui, o poema, declamado na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=xr0FyXDQf_Q. Agora, pra quem fala francês, o tio aí arrasa: https://www.youtube.com/watch?v=zE1ExQfCsng. Até o Barão Vermelho fez
versão do poema:
11) BEATRIZ NASCIMENTO (1942-1995). Escritora, professora, grande ativista do movimento negro
no Brasil e importante voz do feminismo negro. De sorriso largo, bonito, sua
obra é essencial aos estudos etnográficos no país. Infelizmente, a intelectual
foi mais uma vítima da violência contra as mulheres, sendo morta com cinco
tiros pelo companheiro agressivo de uma amiga, a quem havia aconselhado a separação.
Uma grande perda. Cresce, o teu poder é muito / Envolva essa força /
Unifique essa coragem. Eu sou Atlântica é uma obra póstuma, que
mistura poemas, textos e biografia da autora. Livre acesso em PDF, pra quem
quiser: https://www.imprensaoficial.com.br/downloads/pdf/projetossociais/eusouatlantica.pdf
12) BLAKE (1757-1827). Sir
William Blake é um dos fundadores do Romantismo. Poetical Sketches
[1783] é sua primeira antologia poética. Exímio gravurista, ilustrou as imagens
de seu livro, Songs of Innocence and of Experience [1789]. Um homem à
frente o seu tempo, no poema Visions of the Daughters of Albion [1793]
Blake condena a crueldade da castidade e do casamento forçado às mulheres – a imagem
aqui utilizada, capa de seu livro, foi composta pelo próprio poeta. Outro trabalho
em aquarela bastante impressionante é The Great Red Dragon Paintings,
confeccionado entre 1805 e 1810, e que representa uma das cenas do Livro das
Revelações, na Bíblia. Blake também ilustrou versões inglesas da Divina
Comédia, de Dante. Doido, genial, meu livro favorito do ‘mago’ é The
Marriage of Heaven and Hell [1793], um dos mais fantásticos épicos da
humanidade, tendo suas ideias influenciado Jim Morrison e The Doors. Leia-se um verso da obra: If the doors of
perception were cleansed everything would appear to man as it, Infinite.
13) BOCAGE (1765-1805). Nosso querido poeta
neoclássico transgressor, que mal inaugurou o arcadismo em Portugal e já mandou
os árcades catarem coquinho, em especial o esnobe Pina Manique. Quebrou regras,
escreveu poemas eróticos e escatológicos - seus melhores, diga-se de passagem,
super bem organizados no Brasil pelo Glauco Mattoso, fã do Bocage. Internado no
Real Hospício das Necessidades, o poeta terminou a vida traduzindo importantes
obras (como Metamorfoses, de Ovídio) e sendo bonzinho, mas todo mundo
ama seu lado safado e transgressor. Poeta sem limites. Aqui, não seus sonetos
líricos, mas um pouco de seus poemas eróticos, ‘pecaminosos’: http://www.elsonfroes.com.br/bocage.htm
14) BRETON (1896-1966). André
Breton, poeta über original, grande nome da vanguarda francesa, juntamente com
Mallarmé e Tzara, o fundador do Dadaísmo. Autor do Manifesto do
Surrealismo, 1924, até os dias de hoje suas ideias ainda são atuais,
complexas. Defensor da escrita automática, corrente, sem freios. Nadja (1928) é um de seus melhores
livros. Adoro a capa, o texto, a capacidade de fluência poética. Outras obras
sensacionais são Perfume no ar [1936], O amor louco [1937] e A
chave dos campos [1953]. Adoro as capas dele, muito
doidas. A capa aqui estampada é de é Arcan0 17, seu penúltimo livro,
publicado em 1944. Leiam-se os versos finais de “A Poesia”: Os passos de dança transparentes por cima dos mares / A
demarcação na parede dum corpo de mulher ao lançar de punhais / As claras
volutas do fumo / Os anéis do teu cabelo / A curva da esponja das Filipinas /
Os nós da serpente vermelha / A entrada da hera nas ruínas / Tem todo o tempo à
sua frente / O abraço poético como o abraço carnal / Enquanto dura Impede toda
a fugida sobre a miséria do mundo. Uau!
15)BURNS (1759-1796). Robert
Burns, cânone da poesia escocesa, é um cara de muitos epítetos e muitos amores.
Juntamente a Blake, foi um dos introdutores do Romantismo inglês. Gosto da
história dele com Mary Campbell, para quem dedicou os poemas “The Highland
Lassie O.” e “Highland Mary”. Seus biógrafos dizem que a canção (ele compôs
várias) “Will ye go to the Indies, my Mary. And leave auld Scotia’s shore?” é
um convite à amada para que zarpassem a Jamaica juntos. Pô, que massa! Sedutor
esse Burns: faz poemas pra mina e convida pra viverem no idílico dos mares. Nem
ia falar que ela morreu de tifo, porque isso é muito “the dream is over”, mas
daí eu lembrei que o Burns é romântico, então procede terminar em desgraça... Eis seu método poético: My way is: I consider the poetic
sentiment, correspondent to my idea of the musical expression, then chuse my
theme, begin one stanza, when that is composed—which is generally the most
difficult part of the business—I walk out, sit down now and then, look out for
objects in nature around me that are in unison or harmony with the cogitations
of my fancy and workings of my bosom, humming every now and then the air with
the verses I have framed. when I feel my Muse beginning to jade, I retire to
the solitary fireside of my study, and there commit my effusions to paper,
swinging, at intervals, on the hind-legs of my elbow chair, by way of calling
forth my own critical strictures, as my, pen goes.
16) CACASO (1944-1987). Poeta,
professor, letrista de Edu Lobo, Sivuca, Tom Jobim, Djavan... Poeta da geração
mimeógrafo. Tadinho, morreu do coração em 1987. Parecia o John Lennon, com seus
óculos redondos. Publicou seis livros, entre eles A palavra cerzida [1967],
Beijo na boca [1975] e Mar de mineiro [1982]. Adorava discutir
sobre os rumos da literatura, com suas sandálias hipongas de tiras
largas. Percorres a casa e observas: o corredor é longo, / quantos quartos,
e eu navego teus olhos / escavando / nossos corpos noturnos mapeados.
17) CAEIRO. Alberto Caeiro, o primeiro
dos heterônimos do genial Fernando Pessoa. É o heterônimo menos urbano, mais
ligado à natureza. Poeta pastor. O mais lírico, certamente o mais lírico. Seus
versos são coisa linda do mundo. Leiam o canto VIII - Num meio-dia de
fim de primavera, do Guardador de rebanhos, e aprendam o êxtase.
Olhem esse cara gato aqui, lendo o trecho. Gostei do vídeo, bem poético: https://www.youtube.com/watch?v=gKI-1fqOw8A. E pra quem quiser, aqui na voz do Paulo Autran: https://www.youtube.com/watch?v=YaWEFaUeu_E
18) CARLOS DE ASSUMPÇÃO (1927). Poeta, advogado, militante e decano da literatura negra
brazuca. Tem dois livros de poesia publicados e várias antologias. Também
publicou nos Cadernos Negros. Seu poema “Protesto” virou símbolo das
reivindicações da comunidade black na década de 1980. Mesmo que voltem
as costas, / Às minhas palavras de fogo, / Não pararei, / Não pararei de gritar...
É o nosso Craveirinha. Dá pra ouvir a declamação do seu poema “Linhagem” aqui: http://www.quilombhoje.com.br/audio/OucaEstePoema.htm)
19) CASSIANO RICARDO (1894-1974). Tinha uns labião, véi, de fazer inveja à Jolie. Kkk. Poeta
modernista, fez parte galera dos grupos Verde-Amarelo e Anta, mas
daí ele se deu conta de que os caras flertavam com o Integralismo e sabiamente
pulou fora. Pra gente ver que os ‘arrependidos’ não são uma invenção Brasil
pós-eleição 2018... Sua obra mais conhecida é Martim Cererê [1928]. Publicou
21 livros de poesia. Seu penúltimo, Jeremias sem chorar [1964],
pra mim, é seu melhor: O universo é uma viagem imóvel.
20) CECÍLIA MEIRELES (1901-1964). Nossa poeta de olhos obscenamente belos, líricaaa,
musicista, pintora, professora, curiosa. Escreveu muito! Seu primeiro livro foi
lançado quando Cecília tinha apenas 18 aninhos. Quem conhece seu trabalho como
educadora sabe como lutou para salvar a biblioteca pública que ela mesmo criou
a crianças carentes na época do Estado Novo. Getúlio escroto acabou com ela,
sob o pretexto de que oferecia livros “perigosos” a crianças, com “conotações
comunistas”. Pra gente ver que os imbecis estão no poder há muito tempo por
aqui... Traduziu Lorca, Ibsen, Rilke, Tagore, Virginia Woolf. Inúmeras são suas
publicações, entre elas: Viagem [1930], Olhinhos de gato [1940], Mar
absoluto [1945], Retrato natural [1949], Canções [1956], Ou
isto ou aquilo [1964], Elegias [1974], etc. etc. Batuque, samba e
macumba [1933] é pra mim um livro mega especial, em que a autora analisa a
musicalidade afro-brasileira. As ilustrações, belíssimas, são da própria
autora. Tenho muito carinho por ele porque ganhei do meu irmão de presente. Ele
achou num sebo, a-u-t-o-g-r-a-f-a-d-o. É um livro raro e sei que quando ele encontrou
sabia como iria me agradar. Ao longo de sua vida, Cecília gostava de viajar:
lecionou literatura em Coimbra e Lisboa; e em suas andanças por Minas escreveu
a melhor de todas as suas obras, o Romanceiro da Inconfidência [1953].
Livro fantástico! Todo mundo deve ler na vida. Quando dou a disciplina e Poesia,
é leitura obrigatória. História do Brasil em poesia. Quem quiser, pode baixar o
livro em PDF: http://professor.pucgoias.edu.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/5628/material/CEC%C3%83%C2%ADLia%20Meireles%20-%20Romanceiro%20da%20Inconfid%C3%83%C2%AAncia%20%5BRev%5D%5B1%5D.pdf. Uma leitura bacana de um trecho do Romanceiro:
https://www.youtube.com/watch?v=A54vUVmhKxk. E aqui o poeta Leornardo Tonus (lembram dele no
último Conali?), brazuca que ensina literatura na Sorbonne, chique, um lord,
explicando o livro brevemente: https://www.youtube.com/watch?v=YLr8RbcPfjk).
21) CESÁRIO VERDE (1855-1886). Um dos
introdutores do Modernismo português. Como o Augustones só publicou um livro em
vida, póstumo, confeccionado pelo amigo Silva Pinto, em 1887. Poemas esses que
arrebentaram e exerceram grande influência em Pessoa e em Mário de Sá-Carneiro.
Cesário, como Augustones, também morreu de tuberculose. Poeta urbano,
impressionista. Jamais aquele bigodinho diria seu poder poético em “O
sentimento de um Ocidental” e “Contrariedades”: Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; / Nem posso
tolerar os livros mais bizarros. / Incrível! Já fumei três maços de cigarros / Consecutivamente.
// Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: / Tanta depravação nos usos,
nos costumes! / Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes / E os ângulos agudos).
22) CHICO CÉSAR (1964). Sim, o Chico é
poeta! E dos bão! Outro conterrâneo paraíba, nascido em Catolé do Rocha. Versos
pornográficos [2014] é um livro muito bom, mas o Cantáteis é
incrível de bonito, e de quebra o Chico demonstra suas habilidades e
conhecimentos poéticos. Dei pro meu irmão de presente num dos aniversários dele.
Na época, era só impresso, mas depois virou audiolivro. Aqui um trecho
declamado: https://www.youtube.com/watch?v=wyaL52EgdHc.
23) CONCEIÇÃO EVARISTO (1946). Apesar da Conceição ser notória na prosa, o Poemas
da Recordação [2017] é muito singelo, leitura que traz leveza. A
segunda de nove irmãos ralou muito pra ter diploma. É Doutora em Literatura
pela UFF. E apesar de todos os contratempos, Conceição segue sendo uma lady, de
fala mansa, com uns brincões lindos, chocantes, que eu invejo. “Malungo,
brother, irmão” [2008] e “A noite não adormece nos olhos das mulheres” [2017],
escrito à Beatriz Nascimento, estão entre os meus favoritos: A noite não adormecerá / jamais nos
olhos das fêmeas / pois do nosso sangue-mulher / de nosso líquido lembradiço /
em cada gota que jorra / um fio invisível e tônico / pacientemente cose a rede
/ de nossa milenar resistência. Coisa linda, né?
24) CRAVEIRINHA (1922-2003). José
Craveirinha, grande poeta moçambicano. Tem um monte de pseudônimos, coleciona um
monte de prêmios e foi o primeiro poeta africano que li na vida. Agradeço
demais ao Prof. Sérgio Adolfo, da UEL [brutalmente assassinado em 2014] por ter
me apresentado ao poeta em suas aulas no curso de Especialização em Literatura
Brasileira, em 1999. Craveirinha me encantou e a partir daí entendi que a
literatura africana era muito rica e muito mais próxima à brasileira do que as
palavras coloniais que sempre nos foram impostas. Karingana ua Karingana [1982]
é demais. O título diz respeito à expressão do povo ronga, ao iniciar uma
história, correspondente ao “Era uma vez”. Agora meu favorito é o seu primeiro
livro de poemas, Xigubo [1964], que eu insisto em chamar erroneamente de
Xibungo... Kkk. Pra mim, um dos melhores livros poéticos já escritos. E ao som másculo dos tantãs tribais o eros / do meu
grito fecunda o húmus dos navios negreiros... / E ergo no equinócio da minha
Terra / o moçambicano rubi do mais belo canto xi-ronga / e na insólita brancura
dos rins da plena Madrugada / a necessária carícia dos meus dedos selvagens / é
a táctica harmonia de azagaias no cio das raças / belas como altivos falos de
ouro / erectos no ventre nervoso da noite africana. Demais! Aqui, poemas de Xigubo:
25) CRUZ E SOUZA (1861-1898). Grande
poeta Simbolista, numa época em que ser filho de ex-escravizados e escritor era
quase surreal. Educado pelo seu ex-senhor, aprendeu latim, grego e francês,
tendo assim se aproximado dos textos dos simbolistas europeus. É autor de Tropos
e Fantasias (1885) e Broquéis e Missal (1893). Tadinho, o Cisne
Negro foi mais um poeta que morreu de tuberculose. Sofreu demais, perdeu os
quatro filhos prematuramente de tuberculose. Não à tôa sua mulher, Gavita,
tenha enlouquecido de dor... O poema “Lésbia”, super sensual, é muitcho louco
porque o poeta revive a musa inspiradora de Catulo, mas com a roupagem da morte:
Lésbia nervosa, fascinante e doente, / Cruel e demoníaca
serpente / Das flamejantes atrações do gozo. // Dos teus seios acídulos, amargos, / Fluem capros aromas e os
letargos, / Os ópios de um luar tuberculoso.
26) CUTI (1951). Poeta, crítico
literário, escritor, ativista, dramaturgo. Considero o Cuti um dos mais
importantes intelectuais negros da atualidade. É um dos co-fundadores dos Cadernos
Negros. Suas análises literárias são impecáveis, transitando entre a
militância, a identidade e questionamentos à teoria literária imposta pelo mundo
branco, ocidental. Literatura negro-brasileira [2010] é um livro que
todo estudante de Letras deveria ler. É autor de muitas publicações: só de
poesia, oito [sem contar as antologias]. O site do autor é excelente, bem
organizado. Vale a consultá-lo: https://www.cuti.com.br/. Eis alguns versos de poema do livro Sanga [2002]: O que há de mais sólida / e volátil / é
esta salutar solidão / de extrair do próprio peito / o calor e a luz / ante o
inverno e as trevas.
27) DRUMMOND (1902-1987). Todo
mundo ama Drummond. Tipo, eu desconheço quem não goste de batata-frita.
Desconheço também quem não goste de Drummond. Nosso poeta do coração. Mineirim,
cara importante dimais da conta ao modernismo brazuca. Tem uma porrada
de livros publicados, fora as antologias. No primeiro, Alguma poesia [1930],
Carlos já demonstra a que veio ao mundo: ser poeta. Sentimento do mundo
[1940] é fantástico; Claro enigma [1951], porraaa!; Boitempo [1968],
coisa linda, etc., etc., etc. Mas meu favorito é e sempre será A Rosa do
Povo [1945], pela capacidade lírica e ao mesmo tempo social que
habitavam o coração e a mente do poeta. Apesar da fratura da guerra, apesar da
náusea, da morte e da dor, a flor resiste: É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto,
o tédio, o nojo e o ódio. Este documentário, O fazendeiro do ar [1954],
de nome homônimo da obra, é muito sensível. Produzido pelo Fernando Sabino,
vale a pena ser visto: https://www.youtube.com/watch?v=UP66vBqmiNE
28)DANTE (1265-1321). Porque um
clássico é um clássico e cabô. Mestre renascentista, antes de
Milton, antes de Camões. Em seu autorretrato, pintado por Botticelli, vejo que
ele se parece com meu avô, com minha família de origem italiana. Deve ser o
nosso narigão. Militar, médico, farmacêutico, político, tretou com muuuita
gente da high society de Florença, por isso a galeeera nos nove círculos
do Inferno. Kkk. Ainda bem que ele tretou: sem as tretas, jamais A Divina
Comédia pra humanidade. Eis a beleza dos seguintes versos, do canto XXXIII:
Às asas minhas fora empresa insana, / Se clareado a mente não houvesse /
Fulgor, que a posse da verdade aplana. // À fantasia aqui valor fenece; / Mas a
vontade minha a ideias belas, / Qual roda, que ao motor pronto obedece //
Volvia o amor, que move sol e estrelas. Aqui, a Divina Comédia, na
íntegra: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/eb00002a.pdf. Curto muito o livro, tenho uma versão da década de 1950, maravilhosa!
Foi o primeiro presente que meu marido [na época, meu namorado] me deu. Achamos
num sebo. Daí conquistou a pessoa, né? Kkk.
29) e. e. cummings (1894-1962). O poeta que escrevia tudo em minúsculo. Também
pintor, ensaísta e dramaturgo norte-americano. Em 1917, lutou na I Guerra. Em
1921, passou por Paris – dois anos depois, surge Tullips and Chimneys [1923],
já demonstrando sua habilidade de subverter a gramática e a sintática. O cara
viajou o mundo e publicou muito. Doido, doido: escreveu 2900 poemas. Acho que
só perde pro Pessoa. Até hoje seus poemas eróticos fazem barulho. Aqui, o singelo “In the Rain”: your hair /
and then / your dance song / soul rarely-beloved / a single star is / uttered,
and i / think / of you. Aqui, o lindo “I Carry your Heart with Me”: https://www.youtube.com/watch?v=-nF1yMwNr34
30) EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA (1963). Esse poeta mineirinho, professor, um lord, pessoa
refinada, poesia refinada, memória dos congos, memória poética. Ele esteve na Festa
Literária de Maringá de 2019, juntamente com sua bonita mulher, a escritora e
tradutora Prisca Agustoni, e ganhou meu coração pela gentileza, educação e
inteligência. Estreia na poesia aos 22 aninhos, com Dormundo [1985].
Depois vieram Corpo vivido [1991], reunião de poemas publicados de 1985
a 1900. Em 2001, publicou Zeozório blues: obra poética I, com textos
produzidos entre 1985 a 2001. Em 2003, saíram os volumes Lugares ares: obra
poética 2; As coisas arcas: obra poética 3; e Casa da palavra:
obra poética 4, que reúnem sua produção entre 1985 e 2003. Entre 2005 e
2017, publicou mais nove livros de poesia. Ufa! Esse escreve! Poesia e livros
infantis da melhor qualidade, como o Histórias trazidas por um cavalo-marinho,
livro o qual já escrevi um artigo sobre (http://revistas.ufcg.edu.br/ch/index.php/RLR/article/view/1225). É também um crítico literário de respeito. Outro intelectual negro
contemporâneo importante na cultura brasileira. Dele, tenho autografado o Qvasi
[2017], livro bem cabeção, para ser lido com cuidado literário. Um poema
bonito dele é “Em Cabo Verde”: Amo o regresso / sem haver partido. / Amo a
estrela outra / quando a noite // Os barcos / desperdiçam o cais: / à morte é
que os peixes / brilham.
31) EUCANAÃ FERRAZ (1961). Outra pessoa refinada... Acho que é coisa de poeta com E. Também
esteve na Festa Literária de Maringá de 2019 e encantou com sua polidez. A
poesia do Eucanaã é cotidiana, despretensiosa, e acho que por isso me agrada.
Poeta lírico contemporâneo. Eu queria ser vizinha dele pra conversar no sofá,
com almofada enfiada na perna. Acho que seríamos bons amigos. Tem dez livros de
poemas publicados, e como Edimilson, coleciona prêmios e escreve histórias
infantis. Tenho o Poemas da Iara [2008] e o Bicho de Sete Cabeças e
outros seres fantásticos [2009], autografado de modo bem fofinho pra Iaiá,
minha filha. Ela adora as histórias. Curto bastante um de seus últimos
trabalhos, Sentimental [2012]: Estranha matéria, que sobe do fundo /
à flor da memória camada de espuma / diário de bordo vem quebrar aqui.
Aqui, o Eucanaã lê “Autobiografia”, do livro Retratos com erro [2019]: https://www.youtube.com/watch?v=ru7sd3Mm-ww
32) FRANCISCO ALVIM (1938). Diplomata, poeta marginal, estreou em 1968 com Sol dos
cegos. Em 1974 veio Passatempo; em 1978, Dia sim dia não; em
1981, Festa e Lago, montanha. Ganhou dois Jabutis. Seu livro mais
recente é O metro nenhum, de 2011. Eis “Num átimo de amor”: Sem
pompa, subimos pela rampa / Que dá para o sonho. Flamba o olhar / Entre
sumárias palavras: alma, / Garante um lugar ao sol. E o super atual "Disseream na Cãmara": Quem não estiver seriamente preocupado e perplexo / não está bem informado. Não é recente, mas poeta sempre sabe das coisas...
33) GEIR CAMPOS (1924-1999). Professor,
jornalista, tradutor de Rilke, Brecht, Goethe, Shakespeare, Whitman, entre
outros fraquinhos. Muito doido seu método criativo, pois ainda que seja um dos
grandes do Concretismo brasileiro, foi também um dos raros a publicar um livro
com “coroa de sonetos” – forma poética composta por 14 sonetos interligados
entre si. Experiências poéticas abertas, caros leitores. Tem 14 livros
publicados, fora as antologias. Eis “Caracol”: Como esse rei, também
procuras algo / achável só na terra, de que és filho; / e enquanto assim te
perdes na procura / teu rastro marca, com molhado brilho, / as fronteiras do
reino que inaugura. Aqui, o professor Aníbal Bragança, da UFF, lê “Alba”: https://www.youtube.com/watch?v=YglOM8h_oqU
34) GERARDO MELO MOURÃO (1917-2007). Poeta, tradutor, ensaísta. Em suas andanças pela
América, tornou-se amigo de Neruda. Conheci sua poesia quando cursava
jornalismo na UEL. Desde a primeira leitura, achei que ele é do tipo que se
dedica muito a seus versos, buscando qualquer perfeição. Pior é que nem virginiano
é... De intento épico, Hélio Pellegrino o chamava de ‘Nosso Dante’. Tem muita
coisa publicada (Do destino do espírito [1941], O país dos mourões
[1963], Os peãs [1962], Invenção do mar [Jabuti de 1999], O
nome de Deus [2007], etc.) – também, morreu aos 90 e aos 85 ainda tava na
pista, escrevendo. Eu, aos 85, não vou me lembrar nem mais do meu nome, quanto
mais saber a diferença entre um soneto e uma piadinha... Eis um exemplo da sua
fineza: e de olho a olho / sidera / considera: // considerei os astros,
Musa, / Musa, Palatini referamus Apollinis aedem: / ali sob o reinado de
Hilarius Bogbinder / entre os lençóis de linho e os limões verdes / floresciam
as sardas ao redor dos teus seios / tua beleza ferruginosa suplicava /os ruivos
travesseiros.
35) GILKA MACHADO (1893-1980). Enquadram-na
como Simbolista. Começou a escrever novinha, aos 14. Foi uma das primeiras
ladies a publicar poemas eróticos no Brasil. Ui! É mãe de Heros Volúsia
Machado [1914-2004], atriz e bailarina brasileira, que levou ao mundo a
tradição da dança afro-brasileira. É autora de 8 livros de poemas, entre eles A
revelação dos perfumes [1916], título que acho muito chique; Mulher nua
[1922]; Meu glorioso pecado [1928], que parece letra de música da Maysa;
e Sublimação [1938]. Eis seus versos: Os meus retratos são vários / e
neles não terás nunca / o meu rosto de poesia).
36) GOETHE (1749-1832). Grande prosaísta,
crítico literário e poeta alemão. Escreveu mais de 10 mil cartas, criou mais de
3 mil desenhos. Tá vendo como o povo produzia sem ficar em rede social? Kkk. O
cara do Romantismo alemão. Junto com Schiller, foi um dos líderes do movimento Sturm
and Drang (Tempestade e Ímpeto), em reação ao Classicismo. Seu primeiro
sucesso foi o romance Os sofrimentos do Jovem Werther [1774], livro este
que provocou muitos suicídios entre os jovens europeus. Faz a maior lógica a um
escritor romântico, que por sua vez, morreu do modo mais romântico: do coração.
O drama trágico Fausto [1808 - 1ª parte / 1832 - 2ª] é sua maior obra:
Dr. Fausto, um cientista frustrado, aceita doar sua alma ao demônio,
Mefistófoles, em troca da sabedoria, da juventude e de uma bela donzela. Eis
uma poesia trash metal, que termina com a tentativa de suicídio do protagonista:
Atreve-te a romper esses portais / Dos quais cada um
teme o terror sombrio; / É tempo de provar que, à altura de imortais, / Em nada
o cede do homem o alto brio, / De não tremer ante a sinistra gruta / Em que a
imaginação cria tormento eterno. / De arremessar-se a essa abertura abrupta, / Em
cuja estreita boca arde, flamante, o inferno, / De, plácido, empreender essa
jornada, / E seja a risco, até, de resvalar no Nada. Acende uma vela pro corpo, fia.
37) HAROLDO DE CAMPOS (1929-2003). Tá, eu sei, não coloquei o Augusto. Mas eu gosto mais
do Haroldo e eu tinha que delimitar os autores. Com a tradução/transcriação
dele eu aprendi a amar o Maiakóvski, ainda menina. E isso é muito importante na
vida de uma pessoa. Eu acho. Além disso, o Haroldo era um rebeldão, desses que
merecem receber o nome de ‘poeta’. Primeiramente, porque rompeu com o grupo Noigrandes,
formado em 1952 com Décio Pignatari, Augusto e Zé Lino Grünewald, dando início
à poesia concreta no Brasil. Quem não treta, não é poeta metido à dândi. Kkk. Em
segundo lugar, rompeu também com seu orientador, Antonio Cândido, ao escrever
um livro contrapondo-o e o questionando o motivo de não ter incluído Gregório
de Matos no Formação da literatura brasileira. Eu também gosto do
Haroldo porque tive a oportunidade de vê-lo poucos meses antes dele morrer,
quando fazia meu doutorado em São Paulo. Na época, fui com um querido
ex-namorado, que morreu de forma trágica. Ele era fã do Haroldo e me arrastou
pra fala. Com aquela barba branca, o poeta já não me parecia um mago, só um
senhor que levou a vida em poesia. Daí eu entendi que ele não é bad boy,
mas poeta como todos nós. Minhas obras favoritas dele: Signância: Quase Céu
[1979]; Crisantempo [1998] e o clássico Galáxias [1984], livro
CD, acompanhado por cítara e produzido pelo Arnaldo Antunes. Aqui, uma
palhinha: https://www.youtube.com/watch?v=veY2T6S30rw).
38) HILDA HISLT (1930-2004). Eu amo
essa mulher. Seu primeiro livro publicado, Presságio [1950], foi
celebrado por fraquinhos como Jorge de Lima e Cecília Meireles. Em 1951, foi a
vez de Balada de Alzira. Até então morava em SP. Na Faculdade de Direito
da USP conheceu a best-friend de longa data: Lygia Fagundes Telles. Mas a
cidade grande não era pra ela, e em 1966 mudou-se para a sua Casa do Sol, onde
hospedou escritores e artistas dos mais diversos. Hoje a Casa do Sol é a sede
do Instituto Hilda Hilst. Ganhou o Jabuti e um monte de prêmios. Meus livros poéticos
preferidos dela foram publicados na década de 90: Alcóolicas, Amavisse,
Bufólicas e Do Desejo. Fantásticos, como Hilda: impulsiva, inteligente, usou
a erotismo pra aplicar a crítica político-social, disse o que quis, amou, teve
orgasmos, rodopiou e terminou velha, no sítio, sempre bonita, brincando no
balanço. É uma das poetas brazucas mais traduzidas nos estranja. Como se te perdesse nos trens, nas
estações / Ou contornando um círculo de águas / Removente ave, assim te somo a
mim: / De redes e de anseios inundada (poema contido no Amavisse.
Coisa linda, né?). Aqui, poemas na voz dela: https://www.youtube.com/watch?v=RiIyIQFTuHU
39) JARID ARRAES (1991). Só depois de ler
seus poemas pela primeira vez fui ver que ela era mulher engajada e escrevia
para blogs importantes, como o Blogueiras Feministas e o Blogueiras Negras. Natural
de Juazeiro do Norte, além de poetisa é prosaísta e cordelista: filho de
peixe... Ofício do pai e do avô, cordelistas e xilogravadores. As lendas de
Dandara [2015] é seu primeiro livro de contos. No mesmo ano, criou o Clube
da Escrita para Mulheres, com mais de 70 títulos publicados em Literatura de
Cordel. Em 2017 foi a vez de Heroínas negras brasileiras em 15 Cordéis.
Foi só em 2018 que publicou seu primeiro livro de poemas, Um buraco com meu
nome, com ilustrações da própria autora. Em 2019 foi a vez de Redemoinho
em dia quente, livro de contos vencedor do APCA. Um fragmento do poema
“Meio do céu”, que acho f***: no entanto / saturno / pode
ser apenas pedra / e júpiter pedra / e urano e mercúrio e marte / também a mais
pura e / gravitacional rocha / os oceanos sofrem a influência / da lua porém
nossos corpos / comportam marés bravias / e o universo não tem assunto / com
isso // somos menos que o grão moído / nada nutrimos e causamos / apenas vícios
/ somos menos que uma concha quebrada / porque o papel da concha / não é
adivinhar o porvir / mas se pisada e partida e se nenhuma / metáfora de vida
puder ser encontrada / a concha existe e nada espera / porque isso se basta //
mas nós aguardamos / balançamos as pernas / queremos compreender / escritos /
sobre a casa 2 e vênus / em peixes / queremos o carisma dos melhores / signos e
a capacidade de vingança / dos animais peçonhentos // temos a identidade /
fragmentada / por mitos / por estrelas que morrem / paralelas.
40) JOÃO CABRAL DE MELO NETO (1920-1999). Meu mestre. Deveria ter ganhado o Nobel – dizem as
boas e más línguas que seria indicado ao prêmio no ano em que morreu. Era primo
do Bandeira e do Gilberto Freyre. Coisinha básica. O poeta pernambucano foi um
dos meus maiores professores de poesia. Meu querido pai, que já morreu e foi um
dos meus maiores incentivadores, presenteou-me com a coleção completa dele.
Acho que gosto tanto do João Cabral porque ele me ensinou a poesia à exaustão:
mexe, tire, repuxa, coloca, nunca tem fim. Pedra do sono [1942], sua
primeira obra poética é bastante surrealista. No ano seguinte, o maravilhoso Os
três mal-amados. Eu amo tudo do JC: Psicologia da Composição [1947],
O Rio [1953], Morte e vida Severina e Uma faca só lâmina
[1955], Quaderna [1960], A educação pela pedra [1966] Museu de
tudo [1975], A Escola das facas [1980], Sevilha Andando
[1900], Tecendo a Manhã [1999], etc., etc. Meu favorito é O cão sem
plumas [1950], poema que faz um percurso pelo rio Capibaribe, da nascente à
foz. Com obra farta, João Cabral é o poeta viajante, o poeta geógrafo, o poeta
da fome, o poeta do sonho, o poeta da sevilhana, o poeta do Frei, o poeta da
pedra, o poeta da faca, o poeta de todos os museus do mundo: podeis aprender
que o homem / é sempre a melhor medida. / Mais: que a medida do homem / não é a
morte, mas a vida. Aqui, uma coisa chique – o Chico lendo João: https://www.youtube.com/watch?v=FvSOLgu-reY
41) JOÃO NEGREIROS (1976). Poeta, prosaísta e dramaturgo da nova geração portuguesa. Em
2009, foi o primeiro classificado no Prêmio OFF FLIP de Literatura, categoria
poesia, entre outros prêmios. Até agora publicou cinco livros poéticos: O
cheiro da sombra das flores, Luto lento, A verdade dói e pode
estar errada, O amor és tu e O acaso é um milagre. Formado em
Teatro/Interpretação, João tem experiência como ator, de modo que conheci sua
poesia pelos inúmeros vídeos postados no Youtube. E desde então, achei bão bão.
“Tu messias mais” é um poema do car***: https://www.youtube.com/watch?v=HmgcbqbQwe0
42) JOAQUIM CARDOZO (1897-1978). Com z mesmo. Poeta, contista, dramaturgo, tradutor pernambucano.
Era também engenheiro estrutural e auxiliou o Niemeyer nos projetos de Brasília
e da Pampulha. Poliglota, conhecia uns 15 idiomas. O próprio Niemeyer já disse
em entrevista que o Joaquim era um dos brasileiros mais cultos que ele
conheceu. Fraco esse Joaquim, né? Kkk. Ao longo de sua vida, publicou mais de
11 livros. Era workaholic. Talvez por isso tenha morrido como Pessoa, Bandeira
e Mário: sortêro, sem tempo pra ‘constituir família’. Kkk. Mas ele soube
fazer poemas de amor, como em “Poema dedicado a Maria Luiza” e “Espumas do mar”,
no Poesias completas [1971]. Eu adoro esse livro, comprei-o num sebo
certa vez por dois reau. Incrível as belezas que a gente dá sorte nessa vida de
comprar com uma nota suja, amassada. Espia
que versos bonitos: Sua presença para mim se exibe / No seu ar sereno que inda
hoje absorvo, / E nas noites, com negridão de corvo. / Antes que ao porto do
seu céu arribe // A lua. Assim só tenho essa planície... / Pois tudo quanto fiz
foi superfície / De inúteis coisas vãs, humanamente.
43) KAREN DEBÉRTOLIS. Minha amiga, outra mestra em minha vida. Seus poemas trazem o cotidiano,
os conflitos, embelezam as passadas na rua, aquele dia, água e fogo. Karencita
é autora de Calidoscópio [1995], Guardados [2005] e A
estalagem das almas [2006], escrito em parceria com a artista, performer e
fotógrafa Fernanda Magalhães, a Ferzita. Casal lindo de se ver. Casal que amo
ter em minha vida. O Estalagem inclusive inspirou o espetáculo Além Mar,
do grupo belga Noisette. A poeta participou de inúmeras antologias, entre elas
o livro Lula Livre – Lula Livro, lançado em 2018. Seu nome está como
verbete no Dicionário crítico de escritoras brasileiras, organizado pela
Nelly Novaes Coelho. Orgulho que fala, né? Mapas sutis [2018] é seu
último trabalho. Simples, Genial. Poético. Como tem que ser. Agora o meu
favorito é A mulher das palavras, trabalho poético da autora junto a
músicos, num improviso de jazz que nem dá pra acreditar que alguém tão baixinha
seja tão gigante. Eis “O Poema”: O silêncio dói muito mais na pele do
inimigo que o grito. / Pousa, assim, cálido, como uma resposta sem pontuação. /
Deita suave nas concavidades do ouvido. / Desconcerta. / Desmancha certezas. /
Hospeda até pulgas atrás da orelha. / Arma afiada. / Toque lancinante. /
Estratégia zen. / Linguagem dos deuses da arte da guerra. Saca só que maravilha, bora ouvir o disco: https://soundcloud.com/karendebertolis/sets/karen-deb-rtolis-a-mulher-das. E aqui o clipe do poema “Canção de ninar para os sem
coragem”, gravado durante um show no Sesc de Londrina, em 2011. Eu tava lá!! 😊 https://www.youtube.com/watch?v=USwagM0Sau0. O clipe “Manhãs”, um de seus poemas, é coisa linda: https://www.youtube.com/watch?v=zohuIgYv1Z8. Parir palavras...
44) LEMINSKI (1944-1989). O poeta
bigodudo, com cara de doido, dono de uma biblioteca grandona e desorganizada. Paranaense, flertou no haicai e na vida com
Alice Ruiz. O filho do casal, Miguel Ângelo, morreu aos 10. Tadinhos dos poetas
que perderam seus filhos... Foi parceiro de vida também do Haroldo de Campos. Tradutor
de Joyce, Lennon, Beckett, Yukio Mishima, cara poliglota, falava 6 idiomas. Só
perde mesmo pro Joaquim Cardozo. Kkk. Foi letrista/parceiro de uma galeeeeera:
Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Guilherme Arantes, Arnaldo Antunes, Itamar
Assumpção e a saudosa Banda Beco. Quando eu era xóvem, adorava curtir as
baladas no clássico bar de Londrina, Valentino, com a Banda. Esse era o som da
parceria: https://www.youtube.com/watch?v=aaYYI8goTYI&list=PLzFg5iY8-dld_ATPAKePqS4ErpLeS2wYb&index=30&t=0s. Memórias do passado. Esse
Leminski doido. Até professor de judô foi. Catatau é sua obra
mais aclamada. Curto muito o poema “Contranarciso”: em mim / eu vejo / o
outro / e outro / enfim dezenas / trens passando / vagões cheios de gente
centenas // o outro / que há em mim é você / você / e você // assim como / eu
estou em você / eu estou nele / em nós / e só quando / estamos em nós / estamos
em paz / mesmo que estejamos a sós.
45) LIRINHA (1976). José Paes de Lira.
Eu sempre gostei do Lirinha. Teve um Carnaval em Recife que o encontrei no
Pátio de São Pedro, dando um rolê, como qualquer mortal. E ele tava doido.
Muitcho doido. E mesmo assim recitou bem pra car***, sem gaguejar uma linha. Embasbacada
com o talento do moço, falei: “É dândi. Pode se amóxtrar mesmo”. Mas o
Lirinha não é só isso e seria sacanagem das grandes reduzir um cara com tanta
bagagem poética a “doidão do Carnaval”. Muito pelo contrário: nutro por ele
grande respeito, inclusive já escrevi artigo sobre sua poética. Todo mundo o
conhece, sobretudo, por sua participação no Cordel do Fogo Encantado, que era demais,
mas como tudo que é bom, tipo Beatles, um dia acaba. A conexão de Lirinha com
as letras é antiga, pois ainda na infância curtia as pelejas dos violeiros na
fazenda do avô, no interior de Pernambuco. Garoto prodígio, com 12 anos já
recitava poesias no Teatro Santa Isabel, em Rec. É também um cara das Cênicas:
em 2001/2002 dirigiu e atuou no espetáculo Morte e vida Severina, de
João Cabral; em 2007 estreou com Mercadorias e Futuro, de sua autoria,
título homônimo de seu primeiro livro. Agora, incrível mesmo é que no período
de 2004 a 2006, realizou a direção musical d’Os Sertões, do Teatro Oficina,
do Zé Celso. O que mais curto no Lirinha é a habilidade dele declamar e cantas
versos longos, textos amplos, como se tivesse numa peleja no interior, lá pros
lados da Zona da Mata. Foi com ele que conheci Zé da Luz (https://www.youtube.com/watch?v=-SV47bqozcg), bem como outros poetas populares. Compositor,
cantor, assinou várias trilhas. Babem nas recitações: https://www.youtube.com/watch?v=dJaLRietvt4&t=37s
46) LORCA (1898-1936). Federico
García Lorca, um dos meus poetas favoritos. Amo, amo, amo. Pra mim, nenhum
outro poeta hombre foi capaz de conhecer a alma feminina como
ele. Descobrio-o na infância e desde então sua poesia é parte da minha vida.
Sim, eu sou fãzaça dele. Aliás, aqui nesse blog há muitos momentos: “I love”.
Mas tudo bem, poesia é rock n’ roll também. Nos seus primeiros trabalhos,
escreveu muito sobre sua Andaluzia, fato este que me fez querer conhecer
desesperadamente seu lugar de nascimento. Um dia, vou. Foi grande amigo de
Bruñuel e de Dalí. Talentoso, foi também um grande dramaturgo, pianista,
compositor e ilustrador. Várias de suas obras trazem seus desenhos. Foi morto,
fuzilado, em pleno regime de Franco. Meu livro favorito do Lorca é o Romancero
Gitano, um dos mais bonitos de todos os tempos. De verdade. “¡Cigarra!”, contido no Libro
de poemas [1921], é coisa linda de morrer: Sea mi corazón cigarra / sobre los
campos divinos. / Que muera cantando lento / por el cielo azul herido / y
cuando esté ya expirando / una mujer que adivinho / lo derrame con sus manos /
por el polvo. Aqui, poemas musicados: https://www.youtube.com/watch?v=vx5CW0Vyvi8&list=PLKUoJcR4OA8TNRGvwhF64Sz7cnYfYUtFP
47) LUÍS GAMA (1830-1882). Esse
baiano arretado, fugitivo da casa de seus senhores, foi um dos maiores
ativistas em defesa da abolição da escravidão no século passado. Seu poema “Quem
sou eu”, mais conhecido como “Boderrada”, é um verdadeiro tapa na cara da
sociedade racista brasileira. Sua musa jamais foi a grega, mas a “da Guiné, cor
de azeviche, / Estátua de granito denegrido”. Advogou de graça pela libertação
de mais de 500 escravizados. É o cara. Aqui, as estrofes finais do poema “Meus
amores”: Dar cultos à
beleza, amor aos peitos, / Sem vida que transponha a eternidade, / Bem que
mostra que a sandice estava em voga /Quando Uranus gerou a humanidade. // Mas
já que o fato iníquo não consente, / Que amor, além da campa, faça vasa, /
Ornemos de Cupido as santas aras, / Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.
48) MAIAKÓVSKI (1893-1930). Dramaturgo, o
“poeta da Revolução Russa”, grande precursor do Futurismo russo e das correntes
de vanguarda. Foi expulso da Escola de Belas Artes. Gênio irrequieto, de ideias
revolucionárias, poeta rigoroso: chegava a reescrever 70 vezes o mesmo verso. Suicidou-se
com um tiro em 1930, no entanto, há biógrafos que dizem que ele teria sido
assassinado pelo regime. De qualquer modo, sem Maiakóvski a poesia
contemporânea não seria a mesma. “Lílitchka!” é o poema que mais gosto dele.
Eis um trecho, traduzido pelo Augusto de Campos: Recorda — / atrás desta janela / pela
primeira vez / apertei tuas mãos, atônito. / Hoje te sentas, / no coração —
aço. / Um dia mais / e me expulsarás, / talvez, com zanga. / No teu hall escuro
/ longamente o braço, / trêmulo, se recusa a entrar na manga. / Sairei correndo,
/ lançarei meu corpo à rua. / Transtornado, / tornado / louco pelo desespero. /
Não o consintas, / meu amor, meu bem, / digamos até logo agora. / De qualquer
forma / o meu amor / — duro fardo por certo — / pesará sobre ti / onde quer que
te encontres. / [...] / Afora o teu amor / para mim / não há mar, / [,,,] / Deixa-me
ao menos / arrelvar numa última carícia / teu passo que se apressa.
49) MANOEL DE BARROS (1916-2014). O poeta do Pantanal que conquistou meu coração. É tão
fácil amar sua poesia: coisa de gente que fala, gente que se arrasta e que
conversa com formiga, espia pássaro e se batiza em água. Em sua poética, tudo
flui, tudo reluz ao sol. Os poemas manoelinos conquistam a gente como o avô
quando nos dava dinheiro pra comprar picolé na vendinha da esquina. Leveza na
alma. Hoje sua poesia é reconhecidíssima e aclamada, no entanto, ficou muito
tempo distante do público, acho que porque o Manoel não queria saber muito de
badalação, circuitos literários e todas essas coisas. Quem o descobriu, de
fato, foi o jornalista e escritor Millôr Fernandes, já na década de 1980. É
autor de O guardador das águas [1989], O livro das ignorãças
[1993], Livro sobre nada [1996], Tratado geral das grandezas do
ínfimo [2001], entre outros. Escritos em verbal de ave é um livro-brochura
lindo, tanto em relação à estética quanto à poética e sempre o leio pra Iaiá: Palavra
abençoada / pela inocência / é ave. Coisa mais bonitinha ele lendo seus
poemas: https://www.youtube.com/watch?v=eB5_l2NdRLc
50) MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Poeta, tradutor, professor, crítico literário, esse pernambucano
é ninja. Nostálgico, pessimista, vezes sórdido, sabe como é, a solidão traz
pensamentos de morte e tristeza a uma pessoa. Mas não só isso: quem olha para
aquele tiozinho de terno jamais poderia imaginar o quanto ele quebrou as
fronteiras poéticas, o quanto foi transgressor. E você aí se achando o cara
porque usa calça rasgada... Cinza das horas [1917] é seu primeiro livro
poético. Logo em seguida encontramos Carnaval [1919], O ritmo
dissoluto [1924] e Libertinagem [1930], que traz poemas notórios
como “Porquinho-da-Índia”, “Pneumotórax”, “Evocação do Recife” e “Vou-me embora
pra Pasárgada”. Estrela da manhã, de 1936, é outro livro bonito, mais
lírico que o Libertinagem. É o meu favorito do Bandeira. Estrela da
vida inteira [1968] é sua última publicação poética. Apesar do medo de
morrer de doença pulmonar, que o assolou a vida toda, acabou batendo as botas
mais velho, aos 82, por problemas gástricos. Engraçado isso, senão tragicômico,
pois vários poemas temiam a morte tuberculosa. Eis o homem que perseguia a
“Estrela da manhã”: Pecai com os malandros / Pecai com os sargentos / Pecai
com os fuzileiros navais / Pecai de todas as maneiras / Com os gregos e com os
troianos / Com o padre e com o sacristão / Com o leproso de Pouso Alto //
Depois comigo // Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e
direi coisas de uma ternura tão simples / Que tu desfalecerás // Procurem por
toda parte / Pura ou degradada até a última baixeza / Eu quero a estrela da
manhã.
51) MARCELE AIRES (1974). No caso, eu.
Kkk. Hedonismos à parte, coloquei-me no meio porque enviarei, pelos correios,
meus livros aos participantes [alguns alunos devem ter, não sei. Quem tiver,
avisa]. Sou uma poeta ordinária, sem chance de Jabuti, Camões ou Nobel. Kkk. Publiquei
Que transpõe o halo em 2010, com fotos da minha querida amiga, a
talentosa Graziela Diez, que também está aqui dando o curso. Em 2011 ganhei o
prêmio Noel Rosa em verso e prosa, da editora Litteris e publique Ausências
em monólogos, que ganhou o prêmio Guavira de melhor romance do Governo do
MS em 2012. Esse ano pretendo lançar outro romance, Sambuad7, bem como o
livro de poemas Abô de asa. Que transpõe o halo é um livro
simples, mas é limpinho. Kkk. Gosto de poesia desde os 9. Tive a sorte de me
apaixonar por livros e pela biblioteca cedo. Estimule uma criança a ler. Ela
nunca mais deixará de amar a literatura se isso acontecer. Minha filha, Iaiá,
de 7 anos, será melhor poeta do que eu, tenho certeza. Podem anotar.
52) MARIA DO CARMO BARRETO CAMPELLO DE MELO (1924-2008). Adoro seu trabalho. Pra mim, uma das maiores poetas
brasileiras, e, no entanto, poucos a conhecem. Tem 14 livros publicados, entre
eles Ser em trânsito [1979], Partitura sem som [1983] Retrato
abstrato [1990]. Morreu em 2008. Ambígua e indefinida / transbordo
do meu nome: / ele não me contém / ninguém é igual a toda mim. Em sua
página é possível ler vários poemas e conhecer distintas obras: http://www.mariadocarmobcm.com.br/obras.html).
53) MARIA TERESA HORTA (1937). Jornalista, poeta feminista, foi grande ativista a favor
dos direitos das mulheres em Portugal, sobretudo no período final de Salazar. Juntamente
com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa é autora do livro Novas
cartas portuguesas, publicado em 1972 e que causou polêmica e frisson por
seu conteúdo feminista e de enfrentamento ao machismo das leis portuguesas até
então. Maria Tereza também fez parte do grupo da revista Poesia 61. Tatuagem
e Cidades submersas [1961], Minha senhora de mim [1967], Educação
sentimental [1975], As mulheres de abril [1976] estão entre suas
trinta publicações poéticas. Sua poesia é forte, vezes um chamado à luta, vezes
com forte caráter erótico: Onde a língua / segue o trilho / até onde
vai o beijo. Em 2018, aos 81, publicou seu mais recente livro, Estranhezas.
Que venham mais por aí dessa senhora com tantos anéis nos dedos e olhar tenro.
54) MÁRIO BENEDETTI (1820-2009). Grande poeta uruguaio. Durante a Repressão, teve de
se exilar na Argentina, no Peru e em Cuba. Os poemas escritos nessa época são
lindos. Seus textos versam sobre a liberdade, o amor, o cotidiano. Contista,
novelista e ensaísta, suas melhores e mais fartas obras são as poéticas, a
exemplo de La víspera indeleble [1945], Poemas de la oficina
[1956], A ras de sueño [1967], Poemas de otros [1874], Cotidianas
[1979], Viento del exilio [1981], El olvido está lleno de memorias [1995],
Canciones del que no canta [2006], entre outros. Seus livros foram
traduzidos para mais de 20 idiomas. Gosto muito do Mário Benedetti, os seus
poemas fizeram parte do meu imaginário durante muito tempo. Seu poema, “Por qu
cantamos”, é de uma beleza sem igual. Eis as estrofes finais: cantamos por el niño y porque todo´/ y porque algún
futuro y porque el pueblo / cantamos porque los sobrevivientes / y nuestros
muertos quieren que cantemos // cantamos porque el grito no es bastante / y no
es bastante el llanto ni la bronca / cantamos porque creemos en la gente / y
porque venceremos la derrota // cantamos porque el sol nos reconoce / y porque
el campo huele a primavera / y porque en este tallo en aquel fruto / cada
pregunta tiene su respuesta // cantamos porque llueve sobre el surco / y somos
militantes de la vida / y porque no podemos ni queremos / dejar que la canción
se haga ceniza. Aqui, o
poeta o recitando: https://www.youtube.com/watch?v=qaK0Q6M13lU
55) MÁRIO DE ANDRADE (1893-1945). Como o titio Pessoa, Mário só trabalhou nessa vida.
Cartas, poemas, romances, críticas, revistas, estudos musicais, viagens
etnográficas, o homem não parava! Afff!!! Assim que falar da produção de Mário
exige 3 blogs. O modernista. O pai do Macunaíma, o cara esperto que colava nos
melhores rolês culturais de SP e do Brasil. Poeta plural. Em 1922 lança Paulicéia
desvairada, um marco até os dias atuais. Losango cáqui [1926], O
clã do jabuti [1927] e Poesias [1941] estão entre suas principais
obras poéticas. Eis um fragmento de “Ode ao burguês”:
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia! Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados / ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos, / sempiternamente as mesmices convencionais! / De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia! / Dois a dois! Primeira posição! Marcha! / Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia! Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados / ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos, / sempiternamente as mesmices convencionais! / De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia! / Dois a dois! Primeira posição! Marcha! / Todos para a Central do meu rancor inebriante!
56) MÁRIO QUINTANA (1906-1994). O poeta gaúcho que a gente lê na infância e acha que
vai passar. Mas chega na idade adulta e aquela coisa bonitinha continua fazendo
todo sentido. Eu acho que o Quintana nunca cresceu. O Peter Pan das Letras
brasileiras. Traduziu mais de 130 obras da literatura universal, de Proust a
Virginia Woolf. A rua dos cataventos [1940] é seu primeiro livro,
seguido de Sapato florido [1948], Inéditos e esparsos [1953], Caderno
H [1973], A vaca e o hipogrifo [1977], Porta giratória
[1988], entre outros. Mário, como o outro Mário, como Pessoa como Bandeira,
como tantos outros, não se casou nem teve filhos. Solitário, viveu grande parte
de sua vida em hotéis. O Hotel Majestic, no centro histórico de Porto Alegre,
foi uma das moradas do poeta. Em 1982, o prédio foi tombado e virou Casa de
Cultura Mário Quintana. Leia-se “Emergência”: Quem faz um poema abre uma janela. / Respira, tu que
estás numa cela / abafada, / esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo — / para
que possas profundamente respirar. /Quem faz um poema salva um afogado.
57) MATILDE CAMPILHO (1982). Menina. Poeta menina. Linda, linda, voz rouca, poeta da nova
geração que eu virei fã. Pago o maior pau. Kkk. A poeta portuguesa é só uma
jovem que adora dar uns rolês, estudando pintura em Florença ou trabalhando
como jornalista no Rio. Sua ligação com o Brasil é bastante forte: no período
de 2010 a 2013 lançou seus primeiros poemas em jornais brazucas. Em 2014,
lançou Jóquei, seu primeiro livro. O livro tá uma coisa espantosa de
bonito. “Panteão nacional” é sensacional: Mercúrio, meu
cabrão: / Tu que alinhaste a melena / de ouro em jeito de aviso / à queda, que
penteaste teu / cabelinho todo para trás / antecipando o encontro: / Não podias
ter soltado / pelo menos um conselho? / Meu grandessíssimo filho / de um deus
velho, seu / moleque mimado: não / dava pra, sei lá, escrever / recado nos
anéis do vovô / ou enfiar à socapa uma / mensagem no mapa / topográfico de
Alicante? / Qualquer coisa servia, M. / Tu que puxaste o lustro / às sandálias
e às asas / das tuas sandálias, que / jeitaste o paletó de herói / e te lavaste
os pés: tu já / sabias no que isso dava. / Meu grande sacana, tua /obrigação
era subir na boca / e um megafone dourado /e dizer: «Cuidado rapaziada, /
tenham atenção a esse nó / que acontece no estômago / no preciso momento em que
/ esperam por vosso amante. Ouçam seus
poemas online. Valem vale muuuito a pena: https://www.youtube.com/watch?v=a2u1D4i-C48&t=12s / https://www.youtube.com/watch?v=7QSOk141IJA&t=56s. É ou não é diva?.
58) MILTON (1608-1764). Poeta, intelectual inglês, viajou, conheceu Galileu. Foi casado 3 vezes e teve uma penca de filhos. É autor de Comus [1634], Lycidas [1638], Samson Agonistes [1671], entre outros. Merece estar aqui só em razão de sua principal obra, Paradise Lost, publicado em 1667. O poema épico tem 10 cantos e narra o destino dos anjos caídos, após a rebelião no Paraíso, liderado por Lúcifer. Eva acaba sendo seduzida por Satanás (uia!), então no corpo de uma serpente, comendo o fruto proibido. Adão e Eva são expulsos do Jardim do Éden. Foi escrito em versos brancos (possuem métrica, mas não usam rimas). Um fragmento: As far as Gods and Heav'nly Essences / Can perish: for the mind and spirit remains / Invincible, and vigour soon returns, / Though all our Glory extinct and happy state / Here swallow'd up in endless misery.
60) NEJAR (1939). Sim, o pai do Carpinejar. O Carpinejar não
está aqui: é um excelente escritor, tem domínio e sofisticação poética, mas é
aquela história: eu tinha que escolher os nomes, e escolhi o pai. Carlos Nejar
é um dos meus poetas favoritos e é engraçado porque se você lê a crítica dele
no História da literatura brasileira (2007), de 550 páginas, você fala:
“Nossa, que tiozinho faladô, aff!”. Mas quando você lê a poesia dele,
sobretudo nas décadas de 1970 e 80, você fala: “Que poeta foda!”. O Nejar é o
nosso Mário Benedetti brasileiro: durante a repressão militar, seus poemas
ecoaram contra o sistema, principalmente com O poço do calabouço [1977],
Os viventes [1979] e Um país o coração [1980]. Nejar tem uma
extensa produção poética, além de ser prosaísta, tradutor do Borges e do Neruda
e um dos mais importantes críticos literários da atualidade. Eu espero que esse
tiozinho fofinho continue firme e forte, produzindo magias poéticas por muito
tempo. Aqui, fragmentos de “Contra a esperança”, publicado em Árvore do
mundo [1977]: É preciso esperar / por um pouco de vento, / um toque de
manhãs. / E não se espera muito. / Só um curto-circuito / na lembrança. Os
cabelos, / ninhos de andorinhas / e chuvas. A esperança, / cachorro / a correr
sobre o campo / e uma pequena lebre / que a noite em vão esconde. // O universo
é um telhado / com sua calha tão baixo / e as estrelas, enxame / de abelhas na
ponta. // É preciso esperar contra a esperança / e ser a mão pousada / no leme
de sua lança.
61) NERUDA (1904-1973). Poucos
conhecem seu nome de batismo: Ricardo Neftali Reys Bassolato, mas todos
conhecem seu nome literário: Pablo Neruda, que depois de muitos anos se tornou
seu nome legal. Doido isso, né? O pseudônimo que você tem desde os 17 se torna
seu nome de registro. Coisa de poeta. Coisa do grande poeta chileno, que aos 20
aninhos escreveu aquele que seria seu livro mais lido e aclamado: Veinte
poemas de amor y uma canción desesperada. Autor de Tentativa de hombre
infinito [1926], Odas elementales [1954], Cien sonetos de amor [1959],
Arte de pájaros [1966], Para nacer he nacido [1977], entre vários
outros. Desde España en el corazón [1937], o poeta já demonstra forte
apelo social em seus poemas: nessa obra, escreve sobre a Guerra Civil
espanhola. Mais tarde, em Canto general [1950], sua veia social explode.
Algo muito doido sobre o poeta: em 1945 lotou o Pacaembu não por conta do
futebol, mas para ler a mais de 100 mil pessoas em homenagem a Carlos Prestes.
E de pensar isso, parece surreal que um estádio no Brasil já tenha sido lotado
só pra galera ouvir um poeta declamar. O mesmo aconteceu no Chile: após receber
o Nobel de Literatura, em 1971, Allende o convidou para ler para mais de 70 mil
pessoas no Estadio Nacional de Chile. Coisa linda isso, gente. Arrepia!
Morreu em 11 de setembro [ô datinha fia-da-p...], poucos dias após o Golpe
Militar no Chile. Ainda bem que não ficou pra ver as desgraças. Alguns
biógrafos dizem que ele não morreu do câncer de próstata, mas fora aplicada uma
injeção letal no poeta por parte dos milicos. Eu não desacredito, pois a
repressão só trouxe doentes violentos e atitudes insanas à América Latina. De
qualquer forma, o homem pode ter morrido, mas jamais o poeta das multidões.
Hoje, sua casa em Santiago, “La Chascona”, construída para que o poeta se
encontrasse com sua amada Matilde, é museu aberto á visitação. Um ícone da
poesia latino-americana. Aqui, o poema “Amor”: Mujer, yo hubiera sido tu hijo, por beberte / la leche
de los senos como de un manantial, /por mirarte y sentirte a mi lado y tenerte
/ en la risa de oro y la voz de cristal. / Por sentirte en mis venas como Dios
en los ríos / y adorarte en los tristes huesos de polvo y cal, / porque tu ser
pasara sin pena al lado mío / y saliera en la estrofa -limpio de todo mal-. //
Cómo sabría amarte, mujer, cómo sabría / amarte, amarte como nadie supo jamás! /
Morir y todavia / amarte más. / Y todavia / amarte más / y más.
62) NOÉMIA DE SOUSA (1926-2002). Jornalista, tradutora, militante, poeta, considerada a “Mãe” dos poetas moçambicanos. Uma senhora distinta. Quero ficar bonita igual a ela quando envelhecer. A autora chegou a estudar no Brasil e suas primeiras contribuições foram no famoso O Brado Africano. Nas décadas de 1950/1960 viveu em Portugal e na França, onde passou a usar o pseudônimo de Vera Micaia. Autora de um só livro, Sangue Negro [2001], clássico da literatura africana. Pra mim, “Súplica” é seu poema mais bonito. Aqui, os últimos versos de “Magaíça”: E na mão, / magaíça atordoado acendeu o candeeiro, / à cata das ilusões perdidas, / da mocidade e da saúde que ficaram soterradas / lá nas minas do Jone. // A mocidade e a saúde, / as ilusões perdidas / que brilharão como astros no decote de qualquer lady / nas noites deslumbrantes de qualquer City. Eu adoro essa declamação, a voz de Jaime Bonga é muito agradável: https://www.youtube.com/watch?v=FHuAQWDW__o
63) OCTAVIO PAZ (1914-1998). Ensaísta,
tradutor, diplomata e grande poeta mexicano, Nobel de Literatura de 1990. Seu
trabalho teórico no campo da literatura e das artes é notável, sobretudo em El
labirinto de la soledad [1950], Conjunciones y Disyunciones [1969], Los
hijos del limo [1974], In-mediaciones [1979], La Llama doble
[1993]. El arco y la lira [1956] é um livro que todo aluno de Letras
deve ler na vida. Viveu em vários cantos do mundo: Estados Unidos, França,
Japão, Índia. Em 1945, ingressou no serviço diplomático e quando em Paris,
tornou-se brother do Breton e dos surrealistas, de modo que encontramos em sua
poesia uma escrita automática, vanguardista. Além dos incontáveis ensaios de
literatura, arte, política e traduções, publicou inúmeros livros de poesia,
entre eles Libertad bajo palavra [1958], Salamandra [1962], Arból
adentro [1987], Piedra de Sol [obra póstuma, 2009]. Aqui, “Tus
ojos”: Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima,/
silencio que habla, / tempestades sin viento, mar sin olas, / pájaros presos,
doradas fieras adormecidas, / topacios impíos como la verdad, / otoño en un
claro del bosque en donde la luz canta en el hombro / de un árbol y son pájaros
todas las hojas, / playa que la mañana encuentra constelada de ojos, / cesta de
frutos de fuego, / mentira que alimenta, / espejos de este mundo, puertas del
más allá, / pulsación tranquila del mar a mediodía, / absoluto que parpadea, /
páramo.
64) ODETE SEMEDO (1959). Grande poeta da
Guiné-Bissau, pesquisadora e ativista política no país, já tendo exercido a
presidência da Comissão Nacional da Unesco no país, vice-presidência do Partido
Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde e a reitoria da
Universidade Amílcar Cabral, em 2013. Tem Doutorado em Letras na PUC/MG. Entre
o ser e amar [1996], seu primeiro livro, é bastante bonito, assim como No
fundo do canto [2007]. Eis um trecho do poema “Silhueta da desventura”: O meu
tantã é de outros tempos / A melodia que oiço / É o crepitar de chamas /
Confundindo-se com o roncar da fome / E o chão onde piso / É uma ilha de fogo.
65) ONDJAKI (1977). Multifacetado, apesar de jovem, o artista angolano já rodou filmes, atuou no teatro e flertou com a pintura. Tem vários romances, contos e literatura infanto-juvenil. Algumas de suas obras poéticas são: Actu Sanguíneu [2000], Materiais para confecção de um espanador de tristezas [2009] e Há gente em casa [2018]. Tem um monte de prêmios, entre eles um Portugal Telecom [2008], um Jabuti [2010] e um Saramago [2013]. Sua obra foi traduzida a distintos idiomas e quem olha pro CV do poeta, nem imagina que ele tem pouco mais de 40. Ondjaki tem cara de ser bacana, manja aqueles vizinhos que perguntam como anda a vida? Qualquer dia quem sabe não converso com ele por aí... Eis os primeiros versos de “Desnoções e algibeiras”: para ser grilo / há que ter algibeiras / onde também caibam silêncios. Aqui, o escritor, cuja voz é bem aprazível, lê um trecho de A morte de Ricardo Reis [1984], de Saramago, em projeto da editora Leya durante a pandemia: https://www.youtube.com/watch?v=221Ioi1kYHk
66) PATATIVA DO ASSARÉ (1909-2002).
Por que a escolha de Patativa, um cara sem estudos, lavrador, ao invés de
mestres como Homero, Virgílio ou Camões? A resposta é simples: já tem bastante
clássico aqui. E eu curto poesia popular, de cantadores. O menino pobre,
cearense, ficou cego o olho direito ainda menino, vítima do sarampo. Com a
morte do pai, aos 8 anos já ajudava a família no roçado. Apesar do pouco estudo,
aos 12 já compunha repentes e os apresentava em feiras e festas da cidade que
leva seu nome artístico: Assaré, e também do Crato, onde participava de um
programa de rádio, declamando seus poemas. Casou-se, teve ‘somente’ 9 filhos
(não tinha tevê... Kkk) e morreu na mesma cidade onde nasceu. Seu primeiro
livro, Inspiração nordestina, é de 1956. Em 1970 lançou coletânea de
poemas; em 1978, Cante lá que eu canto cá; em 1988, Ispinho e Fulô;
e em 1994, Aqui tem coisa. O que eu acho muito massa no Patativa é que,
apesar da simplicidade e da pouca formação, ganhou inúmeros prêmios e
homenagens, inclusive cinco títulos de Doutor Honoris Causa. Como era um
sujeito sem muita instrução, seus poemas eram memorizados, para posteriormente
serem recitados. Daí o poder da memória do nosso querido tiozinho de óculos
estilo Rayban e chapéu de coco. Mesmo depois dos 90 anos continuava
recitando... Eita memória da gota serena!! Sabe, eu até citei as publicações,
mas o mais massa dele não são os registros escritos, senão a oralidade do
grande repentista, sua entonação, seu ritmo, seus gestos. ‘Amóxtrado’,
criou desde sonetos clássicos, no estilo camoniano até as métricas mais
populares, as quais ele denominava ‘poemas matutos’. Em 1979 apresentou-se no
Teatro José de Alencar, em Fortaleza, com o espetáculo Poemas e canções,
produzido pelo amigo Fagner. Aqui, uma amostra de “Cante lá que eu canto cá”,
presente no show: https://www.youtube.com/watch?v=hOQZfJMOzks
67) RIMBAUD (1854-1891). O poeta
prodígio, genial. Abandonado pelo pai na infância, foi um jovem rebelde, apesar
de cabeção, inteligente e bom aluno. Boêmio, anarquista, aos 17 escreveu Les
Letters du Voyant (As cartas do vidente), defendendo a ideia de
quintessência. Carta essa que uso até hoje para explicar o sentido de
transcendência poética. Tá bom pra você, que aos 17 ainda nem sabia qual
vestibular ia prestar? Kkk. Nesta mesma época, conheceu o poeta francês Paul
Verlaine, que o acolheu em sua casa em Paris, pois o jovem era do interior da
França. Apesar de casado, Verlaine apaixonou-se perdidamente pelo jovem de
olhos azuis, cabeludo. Daí caíram no haxixe e no absinto, de modo que o apelido
do garoto passou a ser “enfant terrible” nas rodas parisienses. Verlaine largou
a mulher e os dois filhos e passou a viver com o jovem, na pobreza, em London
London. Verlaine era um cara violento com os filhos, alcóolatra, e tentou matar
Rimbaud um ano depois. Apesar da loucura do amante, foi Rimbaud quem pagou o
pato, sendo acusado à prisão pela relação homoafetiva. Dois anos depois, aos
19, Rimbaud voltou à sua casa no interior e compôs Uma estação no inferno,
obra pioneira aos preceitos modernos de poesia. Tá bom pra você, que aos 19 só
quer saber de passar com média 6 e tomar umas brejas no Karibamba? Kkk. Aos 20,
voltou pra Londres com o poeta Germain Nouveau e lançou uma das obras poéticas
mais importantes da modernidade, Iluminações. Entre 1875 e 1891 resolveu
dar um rolezão, alistando-se no Exército Colonial Holandês só pra poder viajar
de graça: foi pra Java, na Indonésia; e mais tarde pra Chipre, onde trabalhou
como mineiro. Em 1880 foi ao Iêmen, onde teve várias amantes mulheres. Em 1884
mudou-se novamente, dessa vez à Etiópia, vendendo café e traficando armas,
coisinhas básicas. Kkk. Em 1891 acabou voltando para a França por problemas de
saúde: primeiro, teve de amputar uma perna, e na sequência descobriu que tinha
câncer. Esse foi seu fim, aos 37. Pois é. A vida pessoal do poeta é
nitroglicerina pura. Parece até ficção. Só que não. Seus poemas influenciaram
Allen Ginsberg, Bob Dilan, Patt Smith, Henry Muller, Jim Morrison,
Leminski, entre outros ‘fraquinhos’. O
poeta mais doido, mais prodígio, genial: Inútil beleza / A tudo rendida.
/Por delicadeza / Perdi minha vida (estrofe do poema “Canção da mais alta
torre”). Aqui, o poema “O barco bêbado”, traduzido por Augusto de Campos: https://www.youtube.com/watch?v=jhBHbVTsD20
68) ROBERTO PIVA (1937-2010). Com a
publicação de Paranoia [1963], Piva já vira estrela no ambiente da
poesia marginal de SP. No livro, o olhar flanêur é do cara influenciado
pela geração beat, descrevendo a megalópole com olhar erótico, puxando pra
homossexualidade, sem deixar de ressaltar loucuras lisérgicas e alucinógenas: há
uma epopeia nas roupas penduradas contra / o céu cinza / e os luminosos me
fitam do espaço alucinado / quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz? // eu
urrava meio louco meio estarrado meio fendido / narcóticos santos ó gato azul
da minha mente / Oh Antonin Artaud / Oh Garcia Lorca (versos do poema
“Meeteoro”). O típico poeta “maldito” – se bem, que perto
do Rimbaud, o Piva é um padre. Kkk. Além das antologias, Piva publicou Piazzas
[1964], Abra os olhos e diga ah! [1975], Coxas [1979], 20
poemas com brócolis [1981], Quizumba [1983] e Ciclones
[1997]. Parou de publicar depois disso porque, coitado, passou a sofrer de
Parkinson. Eu adoro esse poema, “O século XXI me dará razão”, lido pelo próprio
poeta: https://www.youtube.com/watch?v=eFXJPjARkMU
69) RODRIGO GARCIA LOPES (1965). O Rodrigo, como a Karen, é poeta de Londrina. Jornalista,
tradutor de Rimbaud e Whitman no Brasil, além de Sylvia Plath, William Carlos
Williams, Gertrude Stein, Bukowski, Jim Morrison e Beckett. No período de
1990-92, durante o mestrado na Arizona State University, entrevistou
importantes escritores norte-americanos, rendendo-lhe Vozes e visões:
panorama a arte e cultura norte-americanas [1996]. Já escreveu romances,
mas seu forte é a poesia: sua primeira obra é Poemas: 1984-1994, seguida
de Solarium [1994], Visibilia [1997], Polivox [2002],
acompanhada de CD, e Experiências extraordinárias. Eis um trecho de
“Delfos”: O olho, quando pousa na coisa, vira / outra, miragem, imagem
perplexa de si / e comigo se confunde, e a si o mundo / e a toda a gente.
/ Como aqui: // O olho era o espelho partido / caindo, neste instante, naquela
rua / distante como um pensamento / que por pouco quase não dura. Eu tenho
vários livros dele, mas o meu favorito é o Polivox. Comprei-o no famoso
Sebo Capricho, em Londrina, lugar que adoro garimpar achados literários e
musicais. Aqui, “Iluminações”, faixa do disco poético Canções do Estúdio
Realidade: https://www.youtube.com/watch?v=5I4KbdgynzU
7o) SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (1919-2004). Pulei o grande bardo, Shakespeare, porque já tem clássico o
suficiente nesse bagui, e cheguei direto na musa, na linda Sophia. Pense
numa miss... Então... Primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões, em
1999. Tem origem nobre, tendo crescido
no ambiente da aristocracia lusitana. Traduziu Dante, Eurípedes, Shakespeare,
entre outros. Além de dramaturga, é autora de livros de contos e livros
infantis. Mãe de 5, talvez tenha escrito para ler à cria. Nos documentários
sobre sua vida, ela sempre aparece sereia, nadando (o mar tem muito peso em sua
poética), e ao mesmo tempo maternal, cuidando dos seus. Eis algumas obras
poéticas: O dia do mar [1947], Coral [1950], Livro sexto
[1962], Geografia [1967], O nome das coisas [1977], Ilhas
[1989], Musa [1994], entre outros. Aqui, o poema “Inicial”: O mar
azul e branco e as luzidias / Pedras: O arfado espaço / Onde o que está lavado
se relava / Para o rito do espanto e do começo / Onde sou a mim mesma devolvida
/ Em sal espuma e concha regressada / À praia inicial da minha vida. Esse
poema, “A forma justa”, é bem bonito: https://www.youtube.com/watch?v=8-NzeyC0-xs
71) SUASSUNA (1927-2014). Sim, o Ariano é mais conhecido pela
dramaturgia, sobretudo pelo Auto da Compadecida [1955], pel’O Santo e
a porca [1957], pela Farsa da Boa Preguiça [1960], entre outras
obras. Polivalente, não foi só o teatro que se revelou no talento desse meu
outro conterrâneo paraíba: em 1971, escreve O Romance d’A Pedra do Reino,
obra que considero uma das mais bonitas e singelas já escritas em língua
portuguesa: Assim, aos poucos, ia se formando no meu sangue o projeto de eu
mesmo erguer, de novo, poeticamente, meu Castelo pedregoso e amuralhado.
Tirando daqui e dali, juntando o que acontecera com o que ia sonhando,
terminaria com um Castelo afortalezado, de pedra, com duas torres centradas no
coração do meu Império. Além de ter um texto supremo, gosto do Romance
da Pedra do Reino porque tive a oportunidade de visitar o cenário da
minissérie em Taperoá, cidade do Cariri paraibano, marco na infância de
Suassuna – que por acaso é cidade vizinha ao povoado onde meu pai nasceu: Santo
André. Agora, na poesia o autor tem publicados O pastor incendiado [1945-1970],
Os homens de barro [1949], Ode [1955], Soneto com mote alheio
[1980], Sonetos de Albano Cervonegro [1985] e Poemas [1999]. Tenho
o Aula Magna, que são as conferências proferidas na UFPB, autografado
por ele. Aqui, os versos finais de “A estrada”: Lá fora, o incêndio: o roxo
lampadário / das Macambiras rubras e auri-pardos / Anjos-diabos e Tronos-vai
queimando. // Sopra o vento – o Sertão incendiário! / Andam monstros sombrios
pela Estrada /e, pela Estrada, entre esses Monstros, ando! Aqui, o poeta
recitando “O campo”:
72) T. S. ELIOT (1888-1965). O ganhador do Nobel de Literatura de 1948 é uma das
figuras mais importantes do Modernismo. Professor, são de sua autoria as
seguintes obras de cunho dramático: Murder in the Cathedral [1935], The
Cocktail Party [1949], entre outras. (Momento Fofocalizando: dizem que
sua mulher, Vivienne, teria chifrado o pobre com o filósofo Bertrand Russel,
mas eu não posso confirmar nada, pois eu não estava lá. Além disso, quem nunca
levou um chifre? Kkk. Afff, eu sou ridícula! Kkk). Quanto às produções
poéticas, escreveu The Hollow Man [1925], A song for Simeon
[1928], Ash Wednesday [1930], Four Quartets [1943] e Old
Possum’s Book of Practical Cats. Todavia, seu primeiro livro The Waste Land
[1922], é o mais conhecido, renomado, e que tanto influenciou os poetas de
vanguarda mundo afora. E eu gosto muito
de The Wast Land, pois além de ser um longo poema que versa sobre fatos
exotéricos, sobre o Santo-Grau, misturando hinduísmo e budismo em seu enredo,
tem uma linguagem satírica e profética, mudando-se a voz narrativa e a relação
espaciotemporal num átimo. Pra quem quiser o livro, na íntegra: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2114326/mod_resource/content/1/ELIOT%2C%20T.%20S.%20The%20Annotated%20Waste%20Land%20with%20Eliots%20%20Contemporary%20Prose.pdf
73) THIAGO DE MELLO (1926). Um dos nossos poetas mais velhos vivos. Ícone da poesia do
Norte, cantando os rios amazônicos, a força de sua terra e de seu povo. Suas
obras foram traduzidas para mais de 30 idiomas. No período de ditadura militar
no Brasil, escreveu poemas de enfrentamento e chamado à luta: não por acaso,
ficou anos de sua vida exilado na Argentina, em Portugal, na França, na
Alemanha e no Chile, encontrando na amizade com Pablo Neruda uma força para sua
poesia. Após esse tenebroso período, em 1985 o poeta voltou à sua cidade natal,
Barreirinha (AM), onde vive até hoje. É outro que eu queria ser amiga, tomar um
chá, sei lá. Tem várias obras em prosa publicadas, entre elas Amazonas,
Pátria d’Água [1991], livro belíssimo, fotos incríveis, e que mistura o
texto prosaico com o poético, num balé caótico, como as águas. Todavia, o seu
forte é a poesia: começa com Silêncio e palavra [1951], Narciso Cego
[1952], A lenda da rosa [1956], Faz escuro, mas eu canto: porque a
manhã vai chegar [1966], livro lindo, sensível e engajado, Poesia
comprometida com a minha e a tua vida [1975], Vento geral [1981],
entre outras. Mas, seu livro mais celebrado é Os Estatutos do Homem
[1964], poema homônimo que o transformou numa voz engajada na luta pelos
Direitos Humanos. Espia que coisa mais linda, o ‘Artigo VII’: Por decreto
irrevogável fica estabelecido / o reinado permanente da justiça e da claridade / e a alegria será
uma bandeira generosa / para sempre desfraldada na alma do povo. Eis o
poema, na íntegra: https://www.escritas.org/pt/t/12844/os-estatutos-do-homem. Já o Mormaço na floresta [1983] é um álbum
poético musicado, muito show pra ouvir deitado no chão da sala ou do quintal: https://www.youtube.com/watch?v=GVug0eG9udA
74) W. H. AUDEN (1907-1973). Grande poeta anglo-americano moderno, cujo estilo alternava
entre o tom corrente e o dramático, com características de vanguarda. Suas
viagens acabaram servindo como material em seus poemas. Na década de 1930, a
mais intensa, transitou entre a psicanálise e as questões sociais. Mais tarde,
quando se mudou da Inglaterra aos Estados Unidos, passou a se focar no
cristianismo e no protestantismo, apesar de jamais esconder sua
homossexualidade. Com o parceiro, Chester Kallman, chegou a escrever libretos
para óperas de Stravinsky, Henze, entre outros. São suas as obras: Paid on both sides: A
Charade [1930], The Dance of Death [1933], Look, Stranger! (This Island) [1936] e Epistle to a Godson & other poems [1972].
Seu poema mais conhecido é “Stop all the clocks, cut off the telefone”, também
conhecido como “Funeral Blues”, e aparece na cena final, emocionante, do filme Quatro
casamentos e um funeral, de Mike Newell [1994]. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=DDXWclpGhcg
75) WALY SALOMÃO (1943-2003). Meu carinho
pelo Waly é bem grande. Tenho uma experiência muito massa ao seu lado. Em 2003,
pouco antes de sua morte, tinha ido ao Rio. Do nada, resolvi assistir ao
pôr-do-sol nas pedras do Arpoador, pois estava em um hotel ali perto. Fui só.
Era um dia da semana qualquer, de modo que o local não estava lotado de
turista. Quando subi na pedra, reparei que havia um senhor, de cabelos brancos
e terno branco, sentado. Qual não foi a minha surpresa ao ver que o sujeito era
nada mais, nada menos, que o Waly. Eu nunca gostei desses furdunços de “tira
uma foto comigo!” ou “Ai!, sou tua fã”. Só olhei pra ele e sorri. Sorriso
largo, não acreditando que o poeta estava ali, ao meu lado. Ele entendeu que o
reconheci e me sorriu grande, de volta. Ficamos mais de uma hora lá sentados,
maravilhando o céu, o mar, o fim do dia. Não demos uma palavra. Às vezes eu
olhava para ele, e ele olhava para mim. Quando o sol se pôs, estendeu-me a mão
e descemos da pedra, um apoiando o outro. Ele bateu seu terno branco e partiu
para a direita. Eu, para a esquerda. Nunca vou me esquecer desse dia. Pouco
tempo depois ele morreu. Tumor no intestino. Nem imaginei que ele estivesse
doente, pois não estava magro, acabado. Era só um homem de cabelos brancos e
terno branco olhando o mar. Waly foi um dos caras mais importantes do
Tropicalismo, assim como intelectual importante no movimento de contracultura,
na década de 1970. Seu primeiro livro é Me segura qu’eu vou dar um troço,
de 1972. Depois vieram Do lado de dentro [1982], Algaravias: câmara
de ecos [Jabuti de 1977], Lábia [1998], O mel do melhor
[2001], entre outros. Compôs letras lindas, como “Vapor Barato” (https://www.youtube.com/watch?v=m3gQ0hDi46w), além de outras canções e poemas, interpretados
por Caetano, Gal, Maria Bethânia (https://www.youtube.com/watch?v=z0WQSi6nPdM), Adriana Calcanhoto e O Rappa. Na década de 1990,
firmou parceria com a deusa Cássia Eller. Foi Secretário Nacional do Livro, na
gestão do Gil frente ao Ministério da Cultura e sua proposta era a inclusão de
um livro na cesta básica. Coisas que a gente não acredita, de massa. Em 2003,
fez papel do canastrão Gregório de Matos em filme homônimo de Ana Carolina
Teixeira Soares. Aqui, trecho do poema “Arte anti-hipnótica”: Lavrador
desempregado / Morador de casebre de pau a pique / 3 cômodos / em Araçatuba / cumpre
pena de prisão domiciliar / por furtos de luz / do programa de energia rural /
para a população de baixa renda. / 4 lâmpadas / sendo que duas queimadas / e
uma geladeira imprestável. / Sem dinheiro para pagar a conta / teve o marcador
de quilowatts arrancado. / Um compadre compadecido armou o “gato”. / 70 anos
incompletos. / Não compareceu ao fórum / pois só possuía chinelo / despossuía
sapato e roupa decente. // Aqui firma e dá fé um Bertold Brecht de arrabalde: /
o sumo do real extraído da notícia de jornal.
76) WHITMAN (1819-1892). Meu mago. A
poesia do Walt Whitman é êxtase pra mim. Puro êxtase. Jornalista, professor,
ensaísta, poeta. O grande poeta do Modernismo norte-americano. Bruxo. Acho que
ele tomou o néctar que só poucos poetas ousaram. Viajou desse mundo a outras
dimensões. Sua poesia atrai pelo alto grau de transcendência. Em certos
momentos, Pessoa e Whitman se cruzam, mas de leve, pois jamais a força da
palavra em inglês encontraria a força da palavra em português. Ado, ado, ado,
cada um no seu... Começou publicando seus primeiros poemas, aos 15, no jornal New-York
Mirror. Jornalista, fundou seu próprio veículo, o Long-Islander (seu
local de origem). A vida dele é muito doida: na época da Guerra Civil Americana
[1861-1865] trabalhou como voluntário dos feridos, em Washington D. C. Bancou a
publicação de seu primeiro e mais fantástico trabalho, Leaves of Grass [1855],
até hoje um dos melhores livros de poemas de todos os tempos. Os poemas
apresentam versos livres, escritos em impulsos automáticos, vibrantes,
alucinantes. O livro começa com o
incrível “One’s Self I sing”, como se representasse o coro de abertura (Of Life immense in passion, pulse, and power, / Cheerful, for
freest action form’d under the laws divine, / The Modern Man I sing). Não dá pra falar muito do livro aqui porque ele traz
trocentas milhões de canções. Um dos poemas que mais curto em
Leaves of Grass é “I sing the Body electric”: Be not ashamed women,
your privilege encloses the rest, and is the exit of the rest, / You are the
gates of the body, and you are the gates of the soul. // The female contains
all qualities and tempers them, / She is in her place and moves with perfect
balance, / She is all things duly veil’d, she is both passive and active, / She
is to conceive daughters as well as sons, and sons as well as daughters. // As
I see my soul reflected in Nature, / As I see through a mist, One with
inexpressible completeness, sanity, beauty, / See the bent head and arms folded
over the breast, the Female I see. (https://www.youtube.com/watch?v=kRHbYPLq0fQ). Pra quem quiser o poema, em PDF: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3985648/mod_resource/content/1/LEAVES%20OF%20GRASS.pdf. O poeta, homossexual, defendia os direitos das
mulheres e se posicionou a favor da abolição da escravidão. Um homem à frente
do seu tempo. Se alguém quiser ler o Whitman em português, procurem pela
tradução do poeta Rodrigo Garcia Lopes. É a melhor tradução brasileira. Whitman
é quem me faz dormir em êxtase: https://www.youtube.com/watch?v=_6_hS8gqm74
77) YEATS (1865-1939). W. B. Yeats, o
grande poeta moderno irlandês. Desde novinho, o bofe demonstrava interesse pelo
misticismo, espiritualismo e ocultismo, sobretudo pelas leituras de Swendenborg.
Eu já traduzi ao português alguns livros do Swendenborg e posso dizer que o
cara é doidão. Então vem daí a escrita mística do Yeats. Consequentemente, se o
cara curtia o espiritual, curtia Blake, poeta que influenciou – e muito – sua
poesia. Yeats curtiu tudo: ocultismo, astrologia. Se tivesse nascido no Brasil,
teria sido amigo do Raulzito e do Paulo Coelho no passado. Kkk. Ai, eu tenho
cada comentário infame! Enfim, seu primeiro poema publicado em antologia foi
“The Island of Statues”, seguindo os passos de Edmund Spenser e Shelley, no
entanto, seu primeiro livro-panfleto, apenas cem cópias rodadas, pagas por
papai, foi Mosada: A Dramatic Poem [1886], seguido de The Wandering
of Oisin and other poems [1889] – este, baseado na mitologia irlandesa. Na
mesma época, Yeats continuous na onda mística, sendo um dos fundadores da Ordem
Hermética de Dublin, em parceria com ordens teosóficas inglesas. Quando o poeta
foi aceito para o Ordem Secreta Golden Dawn [1890], usou do mote mágico “Daemon
est Deus inversus”, que pode ser traduzido como “O Diabo é Deus invertido”. Além
da questão mística, Yeats flertou com nuances nacionalistas, formando grupo com
a dramaturga irlandesa Lady Gregory e George Moore, fundando o Abbey Theatre,
livre das imposições do teatro inglês. Eu escolhi o Yeats pra demonstrar como
quem flerta com o nacionalismo cai no perigo de ser escroto, bolsomínion. Sim,
Yeats foi um escroto, curtiu as correntes autoritárias, fascistas que se
alastravam pela Europa. Yeats, Ezra Pound, Borges, todos flertaram com modos autoritários
governo. E a verdade precisa ser dita, pois não vou ficar pagando pau pra
fascista aqui. Em carta a Neruda, Yeats teria dito abominar o fascismo, no
entanto, suas atitudes pareciam ser distintas. Ganhou o Nobel da Literatura em
1923. Ele produziu igual a um doido, noiado. Acho que só fazia isso. Não dá pra
listar tudo. Tem muuuita coisa publicada. Aqui, alguém recitando seu poema “The
Lake Water of Innisfree”, no mais puro sotaque irlandês que ninguém entende.
Kkk: https://www.youtube.com/watch?v=hGoaQ433wnw













































































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